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Apesar do fracasso das negociações sobre mudanças climáticas na Conferência de Copenhague, no fim do ano passado, o mundo corporativo caminha para a economia de baixo carbono, com a adoção de tecnologias mais limpas de produção. Responsáveis hoje por cerca de 40% das emissões globais de gases que causam o efeito estufa, os BRIC terão um papel importante nesse cenário por dois motivos. Como são países que ainda estão se desenvolvendo e construindo sua infraestrutura, poderão crescer sem aumentar significativamente suas emissões. Em segundo lugar, terão oportunidades para avançar no mercado mundial de energias limpas, que em 2030 deverá movimentar US$ 3 trilhões, com destaque para a área de transportes.
"Hoje o aquecimento global é um tema na agenda das pessoas, das empresas e dos governos. Os BRIC têm um grande potencial para crescer e poderão se aproveitar deste mundo novo que se abre e incentivar essa economia de baixo carbono." A opinião é do sócio diretor da consultoria McKinsey Stefan Matzinger, que participou do segundo dia de debates do seminário "Uma Agenda para os BRIC", promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro nos dias 22 e 23 na cidade, com apoio do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.
Para o consultor, as oportunidades econômicas da mudança de paradigma para empresas que produzam mais com menos energia impulsionarão o mundo para a economia de baixo carbono. "Nos Estados Unidos, na crise, a venda de veículos que consomem mais combustível caíram mais. As grandes mudanças deverão acontecer de uma hora para a outra", afirma.
Com as mudanças climáticas ameaçando o mundo, maior eficiência energética e investimentos em energia renovável são dois fatores que terão importância para reduzir as emissões, segundo Matzinger.
Segundo estudo da Mckinsey, em 2005, as emissões globais somaram 45 gigatoneladas (Gt), sendo que os BRIC responderam por cerca de 40% desse valor total, com a China emitindo oito gigatoneladas, a Índia, quatro, Brasil e Rússia, com duas gigatoneladas cada um. Se o mundo continuasse marchando no ritmo atual, sem grandes inovações na área de tecnologia limpa, as emissões pulariam de 45 gigatoneladas anuais para cerca de 70 gigatoneladas em 2030, com os BRIC respondendo por 28 gigatoneladas.
Mas, com maior eficiência energética e produção mais limpa, o mundo poderia chegar a 2030 emitindo 31 gigatoneladas anuais, em vez de 70 Gt, limitando o aumento da temperatura mundial em apenas dois graus. Nesse cenário de economia menos poluente, os BRIC continuariam respondendo por cerca de 40% das emissões globais.
Como são países que ainda estão em desenvolvimento, podem adotar tecnologias mais limpas. "O grande ponto é que o mundo precisa aprender a produzir mais com menos emissões de gases estufa, com uma melhoria de 5,5% ao ano até 2030. Um salto de produtividade comparável ao da revolução industrial", diz o consultor.
"Nos BRIC a eficiência energética ainda é baixa. Japão e Alemanha conseguem produzir uma quantidade de riqueza consumindo oito vezes menos energia que a Rússia, seis vezes menos que a China, quatro vezes menos que a índia e duas vezes menos que o Brasil", afirma Matzinger. Há diversas medidas de eficiência a serem adotadas, como a mudança de sistemas de produção de algumas empresas que poluem mais, sistemas de transporte mais eficientes e menos poluentes e construção de prédios racionais que reduzam a necessidade de consumo de energia e utilizem materiais ecoeficientes.
Em paralelo, as energias renováveis também deverão ganhar espaço nas matrizes energéticas de muitos países. Um destaque deve ser a energia eólica.
Detentor de uma matriz energética limpa, o Brasil poderá ter papel de destaque nas discussões de mudanças climáticas e no abatimento das emissões globais. Segundo dados da Mckinsey, cerca de metade das emissões brasileiras se relacionam ao desmatamento na Amazônia. Já na maioria do resto do mundo 63% das emissões se relacionam à questão energética.
Se realmente trilharem o caminho de produzir mais com menos energia, os BRIC terão potencial para expandir negócios, participando ativamente de um mercado que deverá movimentar US$ 3 trilhões em 2030. Para o Brasil, cuja matriz energética está baseada na geração de energia elétrica por hidrelétricas e no uso de etanol na frota de veículos, abrem-se oportunidades relevantes na área de biomassa, por exemplo.
Matzinger prevê que, em 2030, apenas a indústria brasileira de energia a partir da biomassa possa exportar US$ 20 bilhões anuais em bens e serviços para os quatro cantos do mundo. No caso brasileiro, o custo de mitigação das emissões é baixo em relação à maioria dos outros países, já que boa parte delas está relacionada ao desmatamento e não ao modo de produção ou consumo de energia.
"Os outros emergentes também poderão ocupar um papel importante nesse mercado trilionário", diz Matzinger.
Uma das maiores produtoras e exportadoras de gás do mundo, a Rússia poderá avançar ainda mais na área, com a commoditie. Já Índia e China ainda terão de construir boa parte de sua infraestrutura nos próximos anos, o que poderá fazer com que eles adotem tecnologias mais limpas e sejam líderes em alguns setores.
"A China poderá ser um grande player na área de iluminação LED, mais eficiente, enquanto a Índia pode ser grande fornecedora de serviços e produtos na área de Tecnologia da Informação. São todos campos a serem criados nos próximos anos com o crescimento da sustentabilidade", afirma o consultor.
Se há oportunidades, há também desafios. Em quinze anos, um bilhão de pessoas vai mudar de renda e passar a ter rendimentos superiores a US$ 5 mil. "Elas vão trocar a bicicleta pela motocicleta. Isso trará pressões", analisa. (Fonte: Valor Econômico) |